sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Linhagem no Kung Fu: uma problemática

O que é uma linhagem em Kung Fu?

Linhagem: série de gerações; linha de parentesco; genealogia, estirpe (Dicionário Online).

Eis o significado formal de linhagem. Por si só, seu significado comprova sua importância. Mas isso não exclui uma problematização quanto ‘o modo com que se constituem, se tratam e se utilizam determinadas linhagens no Kung Fu’ a partir de seus sifu’s (mestres ou professores) e suas ‘escolas’.

Uma linhagem é constituída de heranças entre gerações, onde um patriarca ou uma matriarca, ou seja, os entes mais velhos, são supostamente mais conhecedores dos conteúdos ou conhecimentos acumulados de seus ancestrais. Então, uma linhagem está diretamente ligada a ancestralidade, neste caso, a partir de um ‘sobrenome’ que, em tese, deve trazer em si certos conhecimentos. Conhecimentos estes que constituem ou compõem aquilo que chamamos de linhagem. Em suma, uma linhagem é como uma tradição, que traz em si tradições, conhecimentos, conteúdos e saberes desenvolvidos ao longo do tempo, acumulados, cultivados e repassados de geração para geração, a modo de manter vivos certos saberes (tanto práticos quanto teóricos) e certas práticas.

Saberes e/ou conhecimentos quando passados de uma geração para outra, inevitavelmente se transformam (pois o tempo e influências externas agem sob estes saberes), geralmente em detalhes e quase nunca radicalmente, mas se transformam, e isso é fato inegável. Portanto, dada esta transformação, dá para se dizer que não existe uma ‘pureza’ nestes conhecimentos ou saberes. Quando não destoa muito do ‘conhecimento original’ (questão mais de essência do que de técnica – eis a questão!), podemos dizer que continua sendo uma linhagem, a mesma linhagem, isso se o receptor, aluno, irmão ou discípulo, for reconhecido e ‘autorizado’ pelo mestre (que também fora autorizado outrora por seu antigo mestre, patriarca ou matriarca) em se tornar também um discípulo, ou seja, futuro mantenedor e transmissor do conhecimento de tal linhagem. Nisso, temos aqui certa hierarquia e ‘controle’ (além de organização) na continuidade deste ‘processo’ que é o de manutenção destes saberes ou conhecimentos.

Linhagem como controle do conhecimento

Pois bem, neste primeiro momento, conceituei, discuti e/ou teorizei sobre o significado de linhagem no Kung Fu, a partir de seu uso mais comum pelo menos, já apontando a problemática. Agora vou tratar de problematizar o assunto, a partir de dado contexto.

Certo da importância da existência das linhagens (o que é evidente e foi abordado brevemente no título anterior), como estudante/praticante e professor de Kung Fu (Wing Tjun), Chi Kung e Tai Chi Chuan (estudante/praticante), tive cá minhas experiências com diferentes sifu’s (professores e/ou mestres) de diferentes sistemas ou estilos e escolas de Kung Fu (além do Chi Kung e do Taiji). Nisso, pude experimentar e perceber as diferenças nos modos de se conceber e praticar esta(s) arte(s). Dedico-me, já faz alguns anos, além de praticar, a pesquisar sobre as linhagens, sistemas e/ou escolas de Kung Fu que me cativam e me dizem respeito. Neste caminho, a problemática que envolve as ‘linhagens’ (um território perigoso, porém, inevitável) me veio à mente. Ao tempo em que as linhagens, quase que naturalmente, servem para manter ou cultivar certos conhecimentos, elas também podem ser formas de controle e poder. Quando um mestre se diz representante deste ou daquele estilo, sistema e/ou escola de Kung Fu, detentor do conhecimento ancestral, único responsável por sua transmissão ‘original’, de certa forma ele está impondo uma autoridade sobre os demais. Se houver bom senso, honestidade e realismo nesta fala, aí tudo bem. O problema é quanto isso se torna ‘estacionamento’, comodidade, ideologia. Ou seja, quanto é usado para a manutenção, não do conhecimento, mas da autoridade, hierarquia e/ou em casos extremos, do autoritarismo sob o conhecimento e sob o outro.

Algo difícil de ser dito, mas necessário: grande parte das escolas que se dizem da ‘linhagem’ Ip Man, do sistema Wing Chun de Kung Fu, por exemplo, não o são. Isso é muito usado como discurso ou marketing – contanto que o GM Ip Man é o mais popular (ou popularizado?) mestre do ‘estilo’. Eu, por exemplo, tive contato e estudei com professores provindos da ‘linhagem Ip Man’, própriamente dito do sifu Wong Shun Leung, mas não diretamente com ele, mas com alguém que aprendeu com alguém que aprendeu com o mestre em questão. E a questão é: isso significa que meu professor era da linhagem Ip Man? Ou da linhagem Wong Shun Leung? Por isso, nunca ousei dizer que tenho uma linhagem em específico no Wing Chun - quem dirá que represento a ‘família’. Tento ser sincero ao máximo com a realidade, com a história, com o conhecimento e com meus irmãos e alunos de arte.

Acontece que, muitos mestres ou professores, muitas escolas, utilizam-se da linhagem para controlar o sistema, assim como, controlar seus estudantes/alunos, e assim, controlar o próprio conhecimento, como detentores exclusivos deste saber (o que, geralmente, não é verdade). Daí surgem as disputas e conflitos entre escolas que reivindicam a mesma maestria e linhagem. Daí também é que muito do conhecimento pode se empedrar, congelar ou estacionar, onde a linhagem acaba sendo usada como fator ideológico ou político de controle e manutenção, não só do conhecimento, mas do ‘produto’, ou seja, da ‘marca’ que se torna a linhagem, limitanto e empobrecendo assim a própria arte e o próprio conhecimento.

Linhagem como manutenção de poder

Se, como problematizado no título anterior, a linhagem é usada como controle, ela resulta também em manutenção de poder, onde o suposto discípulo e agora mestre-patriarca da linhagem, detém o poder sobre o conhecimento e consequentemente sobre seus alunos. Assim ele pode manter sua escola economicamente viável (nada contra, mas não é só isso o que deve estar em questão) sob a sombra da linhagem ou do discurso que, em muitos casos, ela se reduz. Aí temos um problema. A linhagem em questão acaba sendo mais figurativa, simbólica e/ou representativa do que real. Ou seja, o conhecimento que ela traz em si se aplica como inquestionável, imutável, inabalável, até que algo ou alguém prove contrário. Neste caso, a linhagem é tomada por um conservadorismo que a mantém viva, mas sobre a égide do autoritarismo e do discurso, mais do que da necessidade e realidade que deveria a justificar e fundamentar. Portanto, não é só porque uma escola, associação ou professor tem linhagem que é bom. Isso, geralmente, é discurso ideológico ou senso comum. Assim como dizer que, por não ter linhagem (em específico) é ruim, sendo que, as coisas não se realizam plenamente pelos discursos alinhados com uma suposta verdade absoluta, mas sim pela realidade prática. Nisso, ter ou não ter linhagem, é uma questão de necessidade (ou pelo menos, deveria ser) e não por uma mera manutenção de poder (negócio) e status.

Com isso, de modo algum estou negando a importância e papel das linhagens. Volto a dizer, estou apenas problematizando uma questão quase ‘intocável’ nos assuntos ditos marciais. Desconfio sempre de quem extremisa a questão a ponto de dizer que ‘se não tem linhagem não é bom ou é picaretagem’, assim como quem diz que ‘linhagem não passa de tradição’. Ambos os casos são equivocados e encontram-se nos extremos de seus discursos ou crenças  ideológicas. Existe escola com uma linhagem específica, assim como, escola com mais de uma linhagem, onde o mestre representa mais de uma família (ou linhagem), e também escola sem linhagem alguma, onde se estuda a partir de variadas experiências, mas não se representam especificamente ou oficielmente elas. Nem numa, nem outra é melhor ou pior, isso é relativo e depende mais da prática no real do que daquilo que se acha, acredita ou diz. Quem comanda no final é a necessidade e sinceridade com o que se sabe, conhece e pratica. O mais é política (no sentido de tomar partido: defesa e ataque com determinismo e simplismo, prática muito comum, infelizmente, no meio dito marcial).

Enfim. Tendo linhagem ou não, o Kung Fu existe e é justamente rico por sua diversidade e nas suas variadas possibilidades, sendo mais que uma luta, um esporte, uma prática física, uma linhagem. Kung Fu em uma concepção mais ampla é um caminho de vida e não um lugar.

Herman Silvani (estudante/praticante, sifu/professor de Wing Tjun Kung Fu e Chi Kung na AFWK, filosofia, sociologia, história e linguagem - e estudante/praticante de Tai Chi Chuan Pai Lin)



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Arte interna não é misticismo, é trabalho com energia...

Durante debates sobre as chamadas 'artes internas', entre várias opiniões (sejam rasas ou mais profundas), vejo uma confusão quando se fala em estilos, conhecimentos, conceitos. Alguns discursos que pretendem ser racionais e sérios acabam sendo 'superficiais', quando não, denotam 'ignorância' sobre o assunto tratado. Outros, em tom de ironia misturam as coisas e acabam sendo tão medíocres ou mesquinhos quanto os que arriscam-se no improvável caminho da 'verdade' única e absoluta. Nisso, prevalece um 'achismo' e a falta de discernimento, o que gera grandes distorções do assunto, conteúdo e/ou conhecimento.
Quando o assunto é 'artes internas', 'energia Chi' e relacionados, a presunção, ignorância e 'ceticismo burro' aparecem reducionistas como 'porradas em supostas lutas', e há então aí uma confusão.
Chi Kung, Tai Chi Chuan, entre outras linhas das artes chinesas não são invencionices nem tampouco misticismo. Mas, muitos confundem as coisas e tecem comentários 'tentando' fazer parecer que sabem e que estas artes são procedem. Meia dúzia de vídeos e discursos não dão, e nunca darão conta do que realmente existe dentro das 'artes internas'. Se não tiver o contato, o acesso, se não estudar, praticar, não tiver boa orientação, nunca se saberá o que é, como é, pois é uma questão de 'experiência', 'sensibilidade', 'estudo, muito estudo ou prática', e 'percepção', não de crença, mágica ou showzinho, como muitos fazem por aí.
Sob tudo, é fundamental a 'incorporação', um conceito pouco levantado nas discussões mundo afora, Brasil adentro. Enfim. Falar depreciadamente do que se desconhece ou não se sabe é, além de falta de bom senso, ignorância ou estupidez. Se não conseguir, não acessar, não adianta, não vai saber, compreender, ter o conhecimento e a habilidade.
Por isso, não confundam as coisas. 'Artes internas' não são 'misticas', são conhecimentos, habilidades, físicas (leia-se física material e física quântica), uma relação entre 'mente, corpo e energia', um equilíbrio entre estes elementos. Sem isso, não há 'arte interna', não há conhecimento no assunto, um assunto que não se explica simplesmente em palavras escritas ou ditas.
* na foto, Grande Mestre Liu Pai Lin, fundador do 'estilo' de Tai Chi Chuan Pai Lin (o qual tenho a honra em estudar/praticar)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A suposta decadência do Kung Fu e a confusão em torno do Tai Chi Chuan e do Chi Kung

Algumas antigas discusões entre praticantes, entusiastas, professores ou mestres de Kung Fu, de tempo em tempo reaparecem e sempre geram polêmica e controvérsias. A partir de alguns vídeos publicados na internet (em que um, algumas semanas atrás, ficou muito ‘famoso’), onde supostos ‘mestres’ e/ou praticantes de Kung Fu, Taiji e/ou Chi Kung ‘apanham’ de lutadores de outros ‘estilos’ ditos ‘marciais’, fazem que muitos entusiastas tirem conclusões, muitas vezes, precipitadas e equivocadas. E estes sempre voltam com o discurso de ‘decadência’ das ‘artes marciais’ chinesas. O fato é que não há uma ‘decadência’, mas há uma distorção, uma confusão de concepções, conceitos, contextos referentes ao tema e as artes provenientes da China já citadas. Alguns, para uma pretensa e sugerida ‘saída’ desta ‘situação’, então falam em ‘modernização’ destes estilos.

Em primeiro lugar, o vídeo (ou os vídeos) em questão não tem nada a ver com 'decadência do Kung Fu', nem com uma pretensa tal 'modernização' dos estilos, ou algo que valha.  Isso é um discurso panfletário (ideológico). No caso do ‘famoso’ vídeo onde o suposto mestre de Tai Chi Chuan apanha do suposto lutador de MMA, a princípio, é um contexto de estereótipo, não de realidade. Pra começo de conversa, Taiji não é luta, pois vai muito além disso. O vídeo é uma 'disputa', um jogo que já se contradiz em se tratando de Taiji. Só mais um (entre tantos) desses feitos para detratar o Taiji ou o Kung Fu. Eu diria que achar que isso resume o todo, que prova alguma coisa, é no mínimo ingenuidade ou falta de conhecimento sobre o Taiji e o próprio Kung Fu.

A confusão é tão grande que, primeiro, os objetivos entre ‘luta’ e Taiji não são os mesmos. Lutar esportivamente é uma coisa. Defesa pessoal é outra. Briga é outra. Praticar para ter fluência na vida é outra. Uma, não necessariamente exclui a outra, como uma não necessariamente complementa a outra. O Taiji e o Chi Kung melhoram significativamente o Kung Fu. Quem pratica/estuda sabe bem disso. Os vídeos em questão não apontam a realidade do Taiji ou do Kung Fu como um todo. Denotam sim um 'estereótipo'. É mais um destes vídeos feitos para deturbar e distorcer fatos Ingenuidade é achar que as artes chinesas estão em decadência por causa de vídeos como este(s). Compreendam, de estilo para estilo, o enfoque é outro. Também existem praticantes e praticantes, onde, geralmente, quem está mais afinado, preparado, no caso de um combate, ganha. Na vida, no cotidiano, o mesmo. Mas são ‘preparações’ e contextos diferentes.

Certamente, como estudante e professor de Wing Tjun, Taiji e Chi Kung, se eu entrar num 'jogo' (luta), ringue, tatame, ou o que for com um 'lutador' (atleta competidor), dentro daquele contexto, posso perder a luta. Pode até ser com um aluno meu. 'Mas como, perder, se é seu aluno?' Sim, porque não? Não sei 'lutar/competir esportivamente'. E isso nem me interessa. Mas, dentro de 'outra realidade', de outro contexto (rua, Mo Gua, etc.), a história é outra. Eis o discernimento que se deve ter para compreender, e aí, então, poder ter coerência no que se fala ou promove. Caso contrário acontece o que está acontecendo com alguns praticantes. Deixam-se enganar por estereótipos.

Se Kung Fu não é luta (leia-se que a 'luta' do Kung Fu leva outro nome - ou nomes, sendo Kung Fu algo mais amplo, complexo), imagina o Taiji! Daqui um pouco vão dizer e querer 'provar' a 'ineficiência' do Chi Kung como 'luta', com um vídeo desses de um 'mestre' desses. Dizer que isso é Taiji, como dizer que Kung Fu é 'luta' (simplesmente), é reduzi-los. A velha discussão de sempre. As várias concepções existentes é que são diferentes. Algumas mais ingênuas, outras ideológicas, e nestes casos, ambas sem a devida profundidade. Tratar o Taiji como uma 'luta' é falta de conhecimento ou compreensão do mesmo. Ambos, Kung Fu, Taiji e Chi Kung podem ser usados (e servem) em 'lutas', tanto esportivas quanto na 'luta cotidiana' (se é que me entendem), inclusive, na 'auto-defesa'. Quando se aplica bem o 'estilo' ou o que for, já não importa muito nominá-lo, o que importa é a habilidade em fazê-lo.

Discernir as coisas, os estilos, motivos, onde são praticados (contextos e situações) faz toda a diferença nesta discussão toda. No caso, como já dito antes, sou professor de Kung Fu (Wing Tjun), também oriento Chi Kung e pratico Taiji. Se eu topar sair no soco com um cara desses (lutador), é muito provável que leve a pior (principalmente dentro do 'jogo', ringue, tatame, octágono). Mas isso também não é uma certeza. As coisas não são pré-determinadas dessa maneira. Mas, como não estou aí pra isso, não estudo/pratico, nem leciono e ensino pra isso, digo que são outras as 'estratégias', outros 'princípios', outra realidade. Por não ser atleta, não ter a força ou o condicionamento físico, e nem utilizar as mesmas estratégias de um, devo usar as 'armas' que possuo, que sei, conheço, pratico, tenho domínio e/ou habilidade. E elas são bem mais, digamos, 'pontuais'. Ou seja, sem todo este 'desgaste' (físico e emocional/psicológico). 'Sem luta', sem disputa, sem submissão. Na dita 'defesa pessoal', o olhar, percepção e habilidade (sensibilidade), contam mais do que o uso da força. Nisso, defendo a tese, ideia ou conceito de 'não-luta'. E isso muda tudo. Quem sabe deste conceito, copreende bem do que estou falando.

Um vídeo como este e tantos outros, só provam uma coisa, a confusão dos entusiastas e limitação de certos 'mestres', não dos estilos, não limitação apenas técnica, mas de atuação como um todo. Bons mestres ou professores ou praticantes não caem nestas 'ladainhas'. Se caem é, justamente porque não estão 'prontos' para aquilo que dizem fazer parte, ser ou praticar. Simples, Kung Fu ou Taiji não se resumem em luta. Aliás, grandes mestres e praticantes não lutam. Mas muitos, quando precisaram do Kung Fu ou Tai Chi ou Chi Kung na vida prática, cotidiana, real, souberam usar e ele(s) funcionaram, independente da 'luta', 'esporte' ou o que for. Ou seja, ampliar o conceito, a concepção, a arte, e não reduzi-los. Eis a questão! Estes vídeos não representam a realidade além da intensão dos mesmos. Na hora do 'vamos ver' não é o 'estilo' que define a situação, mas sim a habilidade ou desenvolvimento do praticante. Aí é uma soma de coisas, de conhecimentos e habilidades, sendo que cada situação é uma situação.

Até hoje só quebrei um dedo treinando, além de algumas lesões leves e medianas. Lutei e briguei pouquíssimas vezes quando adolescente. E sempre me dei bem nelas. Aprendi que a diversidade, os conflitos ou trâmites da vida são mais perigosos do que a 'luta'. E nisso, 'meu Kung Fu' (como gosto de dizer), até então me foi muito significativo. Enquanto lutar é sair no soco, chute, só que com técnica, ou seja, um 'jogo' onde o mais preparado fisicamente e tecnicamente, geralmente sai ganhando. O que não garante o mesmo sucesso em outras situações da vida, onde muitos destes 'vitoriosos' se dão mal. Por isso, dizer que as 'inúmeras técnicas' das artes chinesas são 'inúteis' numa luta, é falta de conhecimento. Na verdade, as vejo no âmago das lutas. As lutas, neste sentido, são uma sínteses do que o Kung Fu e Taiji podem propiciar. Ou seja, alguns aspectos do Kung Fu, Taiji e Chi Kung estão nas lutas de uma forma geral. Estas artes são 'essência', não 'resultado'. Assim como ‘técnica é instrumento, não essência’. 

Pior de tudo é ver praticantes e/ou professores de Kung Fu reproduzindo este discurso, está ladainha (leia-se vídeo) como se fosse 'verdade absoluta'. Isso demonstra o nível de alguns ‘estudantes’ (praticantes) e o que precisa melhorar, sob tudo nas suas ‘óticas’. Em suma, não são os estilos que precisam ‘melhorar’, mas a cabeça e conhecimento de alguns praticantes e professores. Depois falamos em técnica, luta, defesa-pessoal, etc...


  • A matéria da ‘empresa de comunicação esportiva’ (é óbvio que vai distorcer e trabalhar com o ‘não-conhecimento’ do grande público, como é comum no ‘espetáculo midiático’ – leia-se ‘Indústria Cultural’ em Escola de Frankfurt e ‘Sociedade do Espetáculo’ de Debord) denota sua superficialidade ao noticiar  o fato:

  • Tai Chi Chuan / Kung Fu, para além do ‘espetáculo-midiático’ e dos reducionismos:



domingo, 29 de janeiro de 2017

Ip Man não inventou o Wing Chun nem foi o único grande mestre do sistema

O Wing Chun (abreviação: WT) é um sistema de Kung Fu (‘arte marcial’ chinesa) que provavelmente tenha surgido por volta do final do séc. XVII, início do séc. XVIII no sul da China em plena dinastia Qing dos Manchus (1644-1911). Versões diferentes conflituam-se quanto a criação e surgimento do WT que, se torna conhecido no ocidente, a partir de Bruce Lee (Lee Jun-Fan) que de certo modo divulgou o ‘estilo’ devido a sua fama tanto de ator como de ‘artista marcial’. Em algumas partes da China o grande mestre (Yip) Ip Man (1893-1972) já era conhecido, já que foi, senão o primeiro, um dos primeiros e o mais conhecido sifu de WT a lecionar o sistema numa grande cidade chinesa, Hong Kong. Mestre Ip fora professor por algum tempo de Bruce Lee, o que depois também o faria conhecido no ocidente, por isso e por alguns de seus ex-alunos que também viraram professores ou mestres do sistema e que, acabaram divulgando o WT do ‘modo Ip Man’ (ou seria ‘linhagem’?) no ocidente, o que tornou o ‘modo’, ‘escola’ ou ‘estilo’ Ip Man de WT o mais popular, difundido, e por isso, mais praticado do mundo. A figura hoje quase ‘mitológica’ do grande mestre Ip Man ficou ainda mais conhecida depois da série de filmes em torno de seu nome. Independente de tudo isso, o fato é que o mestre Ip deixou um grande legado de bons alunos que se tornaram também grandes mestres do sistema. Entre eles podemos citar Chu Shong Tin (1933-2014), Wong Shun Leung (1935-1997), Moy Yat (1938 – 2001), Willian Cheung (1940…) e Leung Ting (1947...), além de seus filhos Ip Chun e Ip Ching, entre outros. Alguns destes mestres, por sua vez, foram responsáveis por grandes ‘escolas’ de WT, deixando também outros bons alunos que também se tornaram grandes mestres do sistema. Escolas ou associações como a EWTO por exemplo, fundada pelo sifu Keith R. Kernspecht, a partir do ‘modo’ Leung Ting de WT, é uma das grandes escolas de WT do mundo, de onde saíram grandes professores/mestres do sistema, como os conhecidos sifu Tassos (IDVTA) e sifu Sergio Pascal Iadarola (IWKA) - hoje um dos grandes mestres e pesquisadores do WT (em suas várias linhagens, escolas ou modos) e do Kung Fu mundial.
















(GM Ip Man e Bruce Lee)













(GM Leung Ting e GM Ip Man)


O discurso do ‘verdadeiro’ no Wing Chun - Ip Man e seus contemporâneos

Devido ao fato de que Ip Man foi, certamente, um dos maiores mestres da história do WT, mas, além disso, o mais popular (ou ‘popularizado’), alguns acham (e se não acham pelo menos pensam ou agem como tal) que o mestre Ip foi quem ‘criou’ ou WT. Outros dizem (ou divulgam assim, seja por crença ou por interesses publicitários-econômicos), que Ip Man foi ‘o melhor’ mestre de WT da história, ou o grande mestre do ‘verdadeiro’ WT. São inúmeras as associações e escolas que se intitulam e divulgam-se como sendo ‘linhagem Ip Man’. Mas, outro fato que precisa ser considerado (e pensado), é que não existe um ‘WT verdadeiro’ ou ‘puro’, já que o sistema possui várias ramificações, linhagens ou modos. O próprio mestre Ip não foi ‘fiel’ a família (ou linhagem) que o tutelou, estudando com outros mestres e modificando seu ‘modo’ de praticar e ensinar WT. Por isso é contraditório quando algumas escolas agem criticando outros mestres que não são melhores nem piores que Ip Man, só são ‘diferentes’ dele. Na história do WT (consideremos aqui Wing Chun e Weng Chun Kuen) existiram outros grandes mestres tão bons quanto Ip Man, alguns deles, inclusive, contemporâneos a ele, como é o caso dos mestres Yuen kay San (1889-1956), Chu Chung Man (nascido por volta de 1900), Tang Yik (1911 - 1991), Pan Nam (1911 - 1995), entre outros, que, apenas não foram tão ‘popularizados’ quanto Ip Man. Alguns destes mestres, inclusive, trocaram conhecimentos com o mestre Ip. Segundo pesquisas (uma delas do sifu Sergio Iadarola), como bem registrado em fotos, em Hong Kong, grandes mestres da época encontravam-se no armazém (Daí-Dak Lan) de Wai Yan (nascido depois de 1900 - 2004), que também acabara se tornando um respeitado sifu de WT, para trocarem conhecimentos. Antes mesmo do mestre Ip e dos citados mestres acima aparecerem no cenário do WT, tivemos gerações passadas desta arte. Neste sentido, um dos grandes mestres do WT (Wing Chun e/ou Weng Chun Kuen) foi Yuen Chai Wan (1877- 1959/60), irmão mais velho de Yuen Kay San, responsável pelo WT ser difundido no Vietnã. Sifu Chai Wan, assim como fez Ip Man, ensinou bons alunos que se tornaram grandes mestres como Tran Van Phung (1900 – 1987), Tran Thuc Tien (1912 – 1980) e Ngo Si Quy (1922 – 1997), no Vietnã. O legado deste grande mestre deixou uma grande escola de WT naquele país, tão importante e qualificada quanto ao do mestre Ip Man, só que menos ‘popular’, e que atua mantendo este legado até os dias de hoje. Sifu Chau Phong é um dos nomes a dar sequência ao conhecimento iniciado pelo GM Chai Wan. Este também foi o caso de Tang Yik, grande mestre contemporâneo ao mestre Ip, onde seus ‘discípulos’ continuam ensinando até hoje, como é o caso dos mestres Tang Chung Pak (Michel Tang) e Sunny So (que foram - ou são, também professores do sifu Sergio Iadarola, entre outros).









(da esquerda para a direita, GM Ip Man segurando o braço do GM Chu Chung Man, e ao fundo sorrindo o GM Tang Yik, nos seus encontros - fonte: IWKA)















(Dai Dak Lan, antigo armazém de Wai Yan, ponto de encontro de alguns grandes mestres para troca de conhecimentos - fonte: IWKA)
















(GM Yuen Chai Wan, grande nome do WT mundial e no Vietnã)


Isso tudo nos mostra que...

Ao contrário do que muitos pensam ou acreditam, e que muitas vezes se divulga ou se diz por aí, Ip Man não é ‘o melhor’ (mas certamente está entre os 'grandes'), muito menos o ‘único’ grande mestre do WT mundial. Dizendo isto, não estou diminuindo a importância e grande maestria de Ip Man, mas apenas considerando e valorizando outros que, repito, foram (e são) tão importantes e bons quanto ele, e relativizando um discurso muitas vezes usado para ‘impor autoridade’ quando se fala ou se ‘vende’ a ideia de que uma escola ou associação, um mestre ou professor, são ‘legítimos’ ou não. Neste discurso tem muito de ‘publicidade’, por isso, cuidado. Já vi professores de WT ao se referirem a algumas escolas onde os movimentos ou posturas da Garça Branca e/ou da Serpente são mais, digamos, visíveis, dizerem que ‘isso não é o verdadeiro, autêntico ou legítimo Wing Chun’, sendo que, são a garça e a serpente os ‘animais-símbolo’ do sistema WT. Ou seja, dizendo isso, de certo modo, estes ignoram ou negam os antepassados do WT, negando assim também sua riqueza e diversidade, tudo em nome de um ego, ignorância ou um negócio. O ‘modo Ip Man de WT’ (escola ou ‘estilo’) é só mais um, entre outros (importantes tanto quanto tal), inclusive, mais antigos. E isso não significa que seja pior, mas nem melhor do que outros, apenas diferente. Se alguns mestres, professores e suas escolas tiveram a chance, a oportunidade de conhecer, aprender e escolheram aplicar outros fundamentos, ‘modos’ de WT e até ‘estilos marciais’ que relacionam-se ou se integram com o WT, enquanto outros mantiveram-se seguidores de uma única linhagem, família, escola ou modo, isso não quer dizer que um é melhor do que o outro, e nem que algum seja dono da verdade. Novamente pensemos, visualizemos, respeitemos as diferenças. Isso tudo mostra que, além do que é popularmente visto ou dito, o WT é um sistema dinâmico de Kung Fu, e se tem muito ainda o que conhecer dele e nele, no seu interior e entorno. O que não é legal é reduzi-lo à um jogo de ‘verdadeiro e falso’ regrado pelo ego e distorcido pelo discurso provindo deste. Seja Ip Man ou não, o WT é um rico e profundo sistema de Kung Fu que tem uma longa e intensa história.

Herman Silvani (professor da AFWK – Associação Fluir Wing Tjun Kung Fu)


domingo, 8 de janeiro de 2017

O comércio das artes marciais

Não raramente alguns fatores levam ao descrédito e ao distanciamento de muitas pessoas as artes marciais no Brasil (e pelo mundo), aumentando a ignorância e o preconceito sobre esta prática, onde muitas pessoas não sabem realmente do que se trata, apenas reproduzem o que acreditam ou absorvem a partir da publicidade ou de acontecimentos sobre o assunto. Um deles, é o fato de que alguns praticantes e mesmo professores (instrutores ou mestres), se colocam como ‘donos da verdade única e absoluta’ (e muitas vezes ‘autoritários’ – não ‘autoridades’), sendo egocêntricos e arrogantes, mas achando que são ‘sábios’, quando não passam de medíocres. Isso acaba diminuindo significativamente a dignidade que deve existir numa arte marcial que se preze sincera, coerente com a realidade, enquanto conhecimento humano. Outro fator que deprecia muito, e às vezes torna a arte marcial piada ou sinônimo de violência, é o mau uso que se faz dela, onde se condiciona o aluno, se ‘ensina’ simplesmente técnicas, sem o estudo aprofundado dos conceitos e/ou da filosofia da arte (conhecimentos que se integram e se aplicam no real), acrescendo assim o ego do estudante/praticante, onde sua conduta social parte do seu eu, do seu umbigo, em que, músculos e estereótipos dão o tom da sua postura e/ou prática social. Isso é muito comum no meio dito ‘marcial’. Mas um dos fatores que mais me chama a atenção é o fator ‘publicitário’, ou seja, o ‘discurso’ que se faz acima daquilo que se divulga, melhor, neste caso, se ‘vende’. Na maioria dos casos este ‘discurso’ é falacioso, ou seja, mentiroso. Exemplos não faltam - no que chamo de ‘discurso do guerreiro’-  aquele discurso ‘motivador’, que soa como uma ‘teologia’ aos ouvidos do receptor passivo das ‘verdades’ ditadas pelos ‘mestres da falácia’. Nisso, um dos maiores ‘chavões publicitários’ usados para convencer e muitas vezes ludibriar o ‘consumidor’ é o da ‘defesa pessoal’ ou da ‘auto-defesa’, muito comum, por exemplo, relacionado ao método (ou ‘estilo’, ou ‘arte marcial’?) criado militarmente em Israel, chamado de Krav Maga. No Brasil o KM (abreviação) se tornou quase que sinônimo de ‘defesa pessoal’. Mas, é de fato? Depende! Do que? De muita coisa! Ou seja, isso é muito relativo (tanto que a discussão precisa ser aprofundada – não cabendo aqui-agora). O que sei, é que, muito do que se discursa e se vende de ‘defesa pessoal’, não é. Socos, chutes, torções, etc., não significam garantia de defesa. É preciso muito mais que isso para se ter um mínimo de condições para uma ‘auto-defesa’ que funcione dentro da realidade ou situação, e tudo não começa pela técnica marcial (ataque), mas pela ‘sensibilidade’, percepção, intuição, visão. Mas, os vendedores do produto ‘defesa pessoal’ trabalham na lógica da ‘propaganda enganosa’, ou seja, mais discurso e técnica publicitária de venda a partir de uma motivação (teológica) do que realidade, sinceridade ou honestidade. Dito isso, vamos à um exemplo deste ‘discurso’ encontrado junto a um vídeo de uma escola da arte em questão:

“ATENÇÃO: ESSE VÍDEO CONTEM CENAS FORTES DE KRAV MAGA EM (nome da cidade e Estado) - BRASIL.
Não assista se não quiser ficar decepcionado com outros treinamentos de defesa pessoal.
Krav Maga Israelense!
As melhores unidades de elite do mundo praticam, agora só falta você!”

*  Obs.: preservo o nome da associação ou escola e da cidade para não gerar algo a mais do que esta discussão, sendo que o objetivo não é detratar, apenas possibilitar o contraponto.

Tudo bem se o discurso fosse coerente com a realidade, mas não é. Para quem estuda, pratica, conhece, tem a arte marcial incorporada na sua vida (para além do estereótipo, do ‘negócio’ ou do ‘status’) não é tão simples assim - nem o conteúdo do vídeo em questão (como tantos) é coerente com o que se discursa na propaganda escrita.

O ego prepotente ‘combatido’ pelas mais profundas filosofias e práticas marciais do mundo - ou, a contradição:

“Não assista se não quiser ficar decepcionado com outros treinamentos de defesa pessoal.”

Este trecho demonstra a arrogância, a prepotência (ou ‘malandragem’) típica de um dirigente ou ‘mestre’ desequilibrado – ou mero comerciante? -, ou seja, o ‘ego’ do mesmo (representado pelo excesso de ‘confiança’ – ou discurso publicitário?!) não é coerente com uma prática marcial digna (que considere seus fundamentos), pois, a filosofia por trás desta arte deve ser considerada, respeitada, no mínimo, e praticada, caso contrário, a arte passa a ser um mero produto comercial (como se constata quando se tem um discurso desses e vídeos cheios de ‘clichê marcial’ e/ou estereótipos, o que acaba por detratar a arte marcial).

“As melhores unidades de elite do mundo praticam, agora só falta você!”

Este trecho acaba reiterando a falácia e prepotência do trecho anterior, e revelando a intenção quando o convite vem com a ‘imposição’ do discurso propagandista anterior, em outras palavras dizendo que ‘os outros são inferiores, pois decepcionam’ e na sequência ‘os melhores praticam o nosso’.



Não é a primeira propaganda que vi que não respeita e pratica a ‘ética’ marcial. E cá entre nós, neste mundo dito ‘marcial’, ego é individualismo é o que mais se vê, infelizmente, contradizendo(se) daquilo que é essencial numa ‘arte marcial’, o ‘equilíbrio’ de estar e ser. Talvez falte leituras, filosofia, conceitos, práticas que integrem-se. Como é historicamente, é na filosofia taoista e budista, por exemplo, que muitos destes conceitos, destes discernimentos, destas ‘essências’, se encontram. O problema é que muitos ‘mestres’ e associações ou escolas fecham os olhos para isso (não estudam), reduzindo-se assim em meros reprodutores tecnicistas donos dos seus espaços de comercio ou fabricação de egos danificados pelo negócio ou pelo status de estar, mas não realmente ser.



sábado, 20 de agosto de 2016

Wing Tjun, arte também interna...



O sistema Wing Tjun deriva dos estilos Garça Branca e Serpete (Emei), talvez por isso, é que existe a lenda (popularizada) de que uma monja (Ng Mui) criou o WT depois de presenciar um combate entre uma garça branca e uma cobra. Mas sua origem, a partir de certa coerência histórica, remonta do templo Siu Lam (sul da China), onde teria sido desenvolvido por monges que lá habitavam, depois, repassado e estudado nas sociedades secretas compostas por artistas e estudantes do teatro ópera dos juncos vermelhos.
Originalmente o Wing Tjun, além do fator 'externo', era um 'estilo interno' de 'arte marcial', como o Tai Chi Chuan e o Bagua, por exemplo. Mas durante as várias revoltas e guerras na China, o sistema WT foi simplificado para ensinar jovens chineses se defenderem e/ou combaterem em um tempo relativamente curto.
Durante a rebelião taiping o tempo disponível para preparar os jovens para lutarem era pouco, então o trabalho interno foi reduzido, para priorizar o quesito técnico do WT, devido a sua contundência e sofisticação marcial, fazendo com que fosse um sistema de combate eficaz e que pudesse ser aprendido em um curto espaço de tempo.
A arte tradicional interna é poderosa, baseia-se na concentração e fluxo da energia (Chi) - e sua explosão, o 'Fajing'. Mas não é tão simples de se estudar como às vezes parece. É preciso aprender a estrutura (base), o enraizamento ou aterramento, o derretimento interno, a flexibilidade necessária ou relaxamento, e a respiração correta para que esta energia se concentre e tenha fluxo pelo corpo.
Quem estuda WT por este viés tem a possibilidade de aprender um sistema de Kung Fu muito sofisticado, cujo objetivo não é simplesmente 'lutar', mas sim buscar equilíbrio e fluidez para viver e atuar no mundo - além dos quesitos saúde e técnica marcial.
O Wing Tjun que buscamos, estudamos e propomos, é um sistema que tem sua origem nas 3 principais filosofias chinesas: Taoismo, Budismo e por último no Confucionismo, de onde vem muitos dos seus conceitos fundamentais, além do 'resgate' dessa sua história e modo de se conceber e estudar/praticar.
O trabalho interno é mais lento e em alguns aspectos até mais 'difícil' do que o externo, e os resultados não aparecem imediatamente, porém, quando bem praticado, o WT interno, ao se exteriorizar, atinge níveis mais profundos, contundentes e dinâmicos. A partir do estudo do seu fator 'interno', com a prática do Chi Kung e elementos de artes relacionadas, é que o currículo da AFWK foi organizado.
Mente, corpo e energia - para equilibrar e fluir...


* fontes: Wing Chun enciclopédia, IWKA e pesquisas pessoais.

Herman G. Silvani (professor AFWK)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Wing Chun ontem e hoje – e suas variações...

Wing Chun, como mais é popularmente conhecida sua forma escrita (também escrito como Wing Tjun, Ving Tsun, entre outros – e abreviado como WT) é um ‘sistema’ de ‘Mo Sut’ (o que no ocidente é popularmente chamado de ‘arte marcial’), dentro daquilo que popularmente chamamos de Kung Fu (um complexo chinês de Mo Sut que é dividido entre outros diversos estilos). Oriundo do sul da China, mais especificamente na província de Fujian, provavelmente desenvolvido  entre o final do século XVII e início do século XVIII, em plena dinastia Qing (1644 – 1911), no templo de Siu Lam (Shaolin) por estudiosos mestres budistas, especialistas nos estilos Garça Branca e Serpente (estilos de Kung Fu e ‘animais símbolo’ que caracterizam o WT, além de Chi Kung e provavelmente de Tai Chi Chuan), e em seguida ensinado para jovens atores/atrizes do teatro de ópera chinesa dos juncos vermelhos, o WT hoje é um dos sistemas de Kung Fu mais estudados/praticados no mundo. Popularizado (como foi também o caso do Kung Fu), principalmente pelos meios de comunicação de massa, através de documentários e do ator, performer e praticante Lee Jun-Fan, o famoso Bruce Lee, que de certo modo abriu caminhos para que um dos grandes mestres do estilo e seu modo de WT fossem conhecidos pelo mundo. Trata-se de Ip Man que, durante algum tempo foi sifu (professor ou mestre em chinês) de Bruce Lee. Atualmente Ip Man e o seu WT são muito populares pelo mundo, devido ao sucesso e fama do sistema de ser muito eficiente (por mais relativo que isso possa ser) e adaptável, e pela repercussão deste mestre e seu estilo de WT, primeiro através do cinema e por Bruce Lee, depois pelos mais recentes filmes que trazem a figura do próprio Ip Man como protagonista. Ip Man fez ao seu modo o que muitos outros mestres e/ou estudiosos do WT fizeram ao longo do tempo, ou seja, adaptou para sua prática o sistema, estudando mais de uma linhagem e criando assim sua própria escola e estilo de WT (o que, inclusive aparece em um dos filmes da série ‘O grande mestre’). Isso, de alguma forma, acarretou (e sempre acarreta) críticas vindas dos mais ‘puristas’ e/ou ‘conservadores’. Inclusive, na sua época, Ip Man sofreu com isso, sendo considerado por alguns, ‘traidor’ da linhagem da sua família, pelo fato de ter estudado com outros mestres e trazido alguns ‘elementos novos’ ao seu ‘WT familiar’. A partir do seu ‘modo’ ou ‘estilo’, Ip Man deixou alguns bons alunos que também se tornaram grandes mestres, e que, em menor ou maior grau, também desenvolveram seu ‘modo’ de WT. Entre eles, podemos citar Wong Shun Leung (que foi professor de Bruce Lee), Leung Ting (um dos mestres mais seguidos e estudados no WT mundial) e Moy Yat, entre outros. Isso prova que não existe uma pureza e que, o ‘estilo’ (ou ‘linhagem’) Ip Man, não é ‘o verdadeiro’, nem único, melhor ou puro WT, mas sim, ‘um dos’ estilos, escola, linhagem ou modo de se estudar/praticar ou conceber o sistema. Nisso, vários outros grandes mestres (não tão populares quanto Ip Man) deixaram seu importante legado na história do WT, como são os casos de Leung Jan e Yuen Kay San, por exemplo, assim como outros que continuam dando continuidade à estes legados com suas escolas e pesquisas, como são os casos dos atuais mestres Sergio Iadarola (IWKA) e Anastasios Panagiotopoulos (Tassos - DVT), e no Brasil Leo Imamura (Moy Yat), entre outros. Nisso, além do WT, temos artes que se coligam ou, no mínimo, se relacionam em alguns aspectos ou momentos, como é o caso do Yong Chun/Fujian White Crane (Garça Branca), do Weng Chun Kuen, das 18 Lohan Hands (18 mãos de Lohan) e dos próprios Chi Kung e Tai Chi Chuan e seus grandes mestres. O próprio Taiji foi criado a partir dos ‘animais símbolo’ Garça e Serpente, os mesmos do WT, o que confere tal relação. Nisso também consideremos a relação 'filosófica' entre budismo e taoismo na constituição das práticas ou 'artes' citadas acima - o que pretendo abordar em outro momento. 


Hipótese(s) históricas


* Foto del Dai Dak Lan, ideato da GGM Wai Yan che trasformó un suo vecchio magazzino in un luogo d'incontro dove i migliori maestri di Wing Tjun come Tang Yick, Ip Man, Chu Chung Man, Lo Chi Woon, Tam Kong...cercavano di ricostruire l'antico sistema marziale usato nel monastero Shaolin. (via IWKA)


Antigo armazém que era um local de encontro onde grandes mestres de WT como Tang Yick, Ip Man, Chu Chung Man, Tam Kong (entre outros) se encontravam para montar o antigo 'sistema marcial' usado no mosteiro Siu Lam. 











Como já foi dito acima, o WT é um ‘estilo’ de Kung Fu do sul da China. Mas a história de sua origem divide opiniões pelo mundo. Algumas linhagens seguem a clássica e lendária história (ou ‘estória’) da monja Ng Mui (a mais popular delas) e da criação do sistema a partir da luta entre uma serpente e uma garça que, supostamente a monja teria presenciado, e depois de criado um novo estilo de Kung Fu, teria ensinado uma jovem chamada Yim Wing Chun. Surgiria assim um novo ‘sistema marcial’ e seu ‘nome’. Porém, esta é apenas umas das ‘estórias’ que, inclusive, se assemelham a criação de outros estilos de Kung Fu, por isso seu aspecto se torna mais lendário e romântico do que histórico. Nisso, o que temos mais próximo aos ‘fatos’ históricos, se pensarmos a partir do contexto em que se insere o surgimento do WT, chegamos ao templo Siu Lam no sul da China, período onde a dinastia Qing dos manchus dominava o país. E é mais provável que, por se tratar de um sistema sofisticado como é o WT, ele tenha sido criado por estudiosos/praticantes de Kung Fu, tendo como base os estilos Garça Branca e Serpente. Não é por nada que estes são os ‘animais símbolo’ do WT. E por se tratar de dado período e local, podemos considerar que os criadores do sistema eram mestres em alguns estilos de Mo Sut, e por viverem no templo Siu Lam, eram budistas (filosoficamente e religiosamente falando). Em seguida o sistema teria sido passado para seus alunos que eram atores e/ou atrizes do teatro de ópera dos juncos vermelhos, onde ele foi estudado e desenvolvido em segredo – daí o surgimento e a história da(s) ‘sociedade(s) secreta(s)’, com o intuito de desenvolver, preservar e aprimorar o sistema, a modo dos seus praticantes defenderem-se da tirania dos manchus. Esta é a ‘hipótese’ (uma entre tantas) de que, como historiador (não especializado nesta área, mas com meu ‘faro’), estudante e professor de WT, acredito. Outra, e a mais popular entre elas, é a de que o WT foi desenvolvido para destronar o imperador manchu e retomar a dinastia anterior, a Ming. Existe mais uma, a de que o WT serviria para a ‘revolução’. Ou seja, ajudar na derrubada da dinastia Qing e criar uma nova ordem social. Acho estas duas últimas pouco prováveis, pelo fato de o sistema ter sido criado por mestres estudiosos, portanto, ‘intelectualizados’ nas filosofias e no Kung Fu, e repassado a jovens letrados nas artes, por isso, também ‘intelectualizados’. Portanto, dentro de certa perspectiva de pensamento ‘lógico’, como seres inteligentes e estratégicos, saberiam da imensa dificuldade de, em poucos, derrubar um império muito forte como era o manchu. Por isso fico com a primeira hipótese de que o WT foi criado e desenvolvido, pelo menos num primeiro momento, para a própria defesa física e cultural dos seus membros praticantes e seu modo de vida (lembrando que a repressão era forte no período, e que o exército Qing era muito bem treinado), o que, de certo modo, explica o dito popular de que o WT foi criado para ‘pessoas mais fracas se defenderem de pessoas mais fortes’.

WT no tempo presente e suas possibilidades

Atualmente, pela popularização da internet, you tube, sites e blogs que tratam do gênero, para os que não sabiam ou não acreditavam, se comprova que existem inúmeras linhagens e escolas de WT espalhadas pelo mundo. Seja nos vilarejos do sul da China e do Vietnã ou espalhadas pela Europa, escolas, mestres e suas linhagens ou estilos de WT, nas suas diversidades, hoje são visíveis. Assim se pode ver que, além da ‘escola’ deixada melo GM Ip Man e suas variações, inspirações ou influências, existem inúmeros outros modos ou estilos de WT, tão profundos quanto o estilo ou linhagem Ip Man, só menos populares (ou popularizados), mas não menos sofisticados, eficientes ou efetivos. Uma variedade e suas variações que permitem que, hoje, com a orientação coerente, se estudem possibilidades dentro do WT, em suas várias linhagens. E isso não tem nada a ver com ‘desrespeitar’ uma ou outra linhagem, mas apenas possibilitar. É o que fazem alguns mestres/pesquisadores hoje. Nisso, tomemos de exemplo o já citado sifu Sergio Iadarola e sua IWKA, com seus estudos e pesquisas do WT e artes relacionadas pelo mundo, mantendo vivo e mostrando com amplitude o sistema, nas suas várias linhagens e possibilidades. Eis a importância de se estudar, além do quesito técnico e cíclico, a história, a filosofia (seus conceitos e formas), e as inúmeras possibilidades que uma arte tão sofisticada e sempre atual como o WT nos oferece.


Herman G. Silvani (professor/instrutor da AFWK – Associação Fluir Wing Tjun Kung Fu)