sexta-feira, 4 de março de 2016

Incorporar o Kung Fu

Minha paixão pelo Kung Fu vem desde muito cedo, quando ainda era pré-adolescente, em meados dos anos 90. Vendo filmes do Bruce Lee, busquei aprender esta arte com um professor que morava no mesmo bairro que eu. Durante alguns anos fui praticante e entusiasta de arte marcial, até me envolver mais com a música e as artes em geral. Acabei ficando mais de 15 anos sem praticar oficialmente em uma escola, porém, nunca parei com meus estudos pessoais, alguns contatos e práticas, principalmente com aquilo que chamam de ‘arte interna’. Neste tempo, antes de retomar os estudos/treinos numa academia, algo de Chi Kung e Taiji, assim como movimentos (das formas) do Kung Fu (Garça Branca, Serpente e Wing Chun), sempre estiveram presentes na minha vida. Até que, enfim, retomei a prática efetiva com um grupo, e hoje, além de estudante/praticante, também sou professor/instrutor da AFWK (Associação Fluir Wing Tjun Kung Fu). Estudo e pratico quase que diariamente, e como também sou da área da filosofia, levo muito em consideração o pensamento oriental nestes estudos. Nisso, sempre enfatizo aos meus irmãos/ãs Kung Fu e/ou alunos/as, que ‘não basta só treinar (fisicamente falando), é preciso incorporar o Kung Fu’, seu ‘espírito’. Quando falo em espírito aqui, não estou me referindo à questão religiosa, ou me remetendo ao além-divino, mas sim a incorporação do Kung Fu como uma ‘personalidade’ mental e física a ser adquirida, um ‘modo de ser e atuar’ na vida. Ou seja, ‘espírito enquanto integração com o meio’, enquanto criação de um ambiente propício ao ‘ser Kung Fu’, externa e, principalmente, internamente. Sabem quando popularmente se fala ‘o espírito do lugar’, ou ‘aqui tem um bom espírito’, ou ainda, ‘esta pessoa é espirituosa’? É isso! É neste sentido que ‘o Kung Fu precisa, fundamentalmente, ser incorporado’. Caso contrário, teremos mais um nome, um título ou uma palavra, do que uma condição, o que, diga-se de passagem, acontece ou existe muito neste meio e por aí. E para que esta ‘incorporação’ seja possível, é preciso, além de treinar (fisicamente e tecnicamente falando), absorver o ‘espírito do Kung Fu’ no seu próprio corpo, e mais que isso, na sua própria mente e sensibilidade. Assim desenvolvemos uma ‘espiritualidade’ Kung Fu, em que a palavra, o termo, passa a ter um significado mais profundo, pois, já não falamos mais da boca para fora ou apenas mantendo o discurso e a aparência, mas sim ‘vivemos o Kung Fu’ efetivamente e talvez, integralmente, o que não é algo fácil, porém, podemos sim ter certa ‘parcialidade’ que, mesmo não estando completamente mergulhado nisso, no seu todo, assim mesmo podemos integrar esta incorporação ou composição, como músicos de uma orquestra, onde, mesmo numa sinfonia que é feita de partes, o que mais importa é a música, a arte, e onde o corpo, a mente ou nossa consciência, e a energia vital que nos sustenta e nos move, possam estar equilibrados existencialmente e intelectualmente. Para isso basta certa ‘disposição’ e/ou ‘entrega’ daquele que se permite estudar/praticar para além do quesito físico-externo ou técnico. Contudo, isso vai refletir no que o taoismo e também o budismo (enquanto filosofias e não religiões) chamam de ‘o caminho do meio’. Ou seja, ‘nem muito, nem pouco, mas o suficiente’. Eis o caminho! Eis o que o Kung Fu, já incorporado, nos pode trazer de mais profundo: o ‘equilíbrio’ de ser-estar. Ou seja, de viver sendo Kung Fu, para além das aparentes razões e vaidades que, muitas vezes, infestam este ‘mundo’ dito marcial.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Wing Chun: hipóteses históricas

Alguns estudiosos da história do Kung Fu afirmam que sistema Wing Chun e/ou Weng Chun Kuen tem suas raízes históricas datadas a partir de 1644, no período imperial chinês dominado pela dinastia Qing (dos Manchus) que só caiu depois da Revolução Chinesa (1911-1912). Contundo, não há como precisar uma data exata para o nascimento do WT (sigla para Wing Chun, Weng Chun ou Wing Tjun/Tsun - também encontramos escrito Eng Chun), mas em linhas gerais podemos dizer que ele foi desenvolvido pelos idos finais do século XVII ou início do século XVIII. O que nos interessa aqui, enquanto pesquisadores, professores ou estudantes de Kung Fu e sua história, são os contextos que envolvem o sistema (ou ‘estilo’), além das concepções e conceitos internos que constituem esta sofisticada e ampla arte. Nisso, vou reter-me a falar disso, daquilo que tenho condições enquanto historiador e professor de WT, tendo em vista os possíveis fatos, hipóteses e circunstâncias que entornam e são inerentes ao sistema WT. Portanto, tudo o que for dito aqui não são ‘verdades’ absolutas, mas sim impressões, hipóteses, interpretações ou ainda ‘versões’ dos possíveis fatos históricos, a partir de informações ou conhecimentos não constituídos na metodologia da pesquisa histórica, mas em leituras, percepções, diálogos e análises relacionadas, pensadas e colhidas através do tempo, apenas por um olhar de historiador. Ou seja, o texto presente não é resultado de uma pesquisa histórica presencial-oficial, mas apenas uma reflexão ou análise de cunho sociológico, filosófico e histórico, a parti de um  olhar ou leituras pessoais.


‘Linhas’ de se pensar, estudar ou praticar Wing Chun

Existem inúmeras linhagens, famílias ou escolas de WT pela China e pelo mundo, assim como inúmeros mestres e estudantes do ‘estilo’, o que, de certo modo, criou ‘linhas’ diferentes de se pensar, praticar e conceber o WT como sendo um sistema de Kung Fu e forma cultural de se viver ou se posicionar no mundo – como é o Kung Fu para além do quesito ‘luta’. Dentro destas ‘linhas’ existem divergências quanto aos modos de se interpretar e estudar ou promover o ‘estilo’. As ‘linhas’ mais populares (ou popularizadas) conhecidas pelo mundo, sob tudo no ocidente, vem a partir da chamada ‘linhagem Ip Man’. Para quem pouco ou nada sabe da história do WT, alguns podem até pensar que foi este mestre que desenvolveu ou criou o ‘estilo’ (observo, pois já vi gente dizendo isso). Mas o que podemos pensar ou dizer é que, o WT do mestre Ip Man, é um 'modo' de WT, digamos, mais ‘moderno’, no sentido de que, Ip Man, como tantos outros mestres, modificou o WT o adaptando ao seu 'modo' de interpretar e ensinar o sistema. Nas províncias e vilas do sul da China ainda existem ‘linhagens’ de WT, geralmente em pequenos grupos, muitos deles familiares, que trazem em si características do que podemos chamar de ‘o antigo WT’ (mais próximo aos estilos Garça Branca, Emei e Serpente de Kung Fu). Podemos constatar isso, por exemplo, a partir das pesquisas do sifu holandês Sergio Iadarola (mestre fundador da IWKA), um dos grandes mestres e pesquisadores atuais do WT e das chamadas 'artes internas' a nível mundial. Sifu Sergio tem vasto material publicado sobre ‘linhagens’ e/ou ‘sistemas’ de WT e artes relacionadas, as que têm ligação, digamos, mais ‘direta’ com o WT das primeiras gerações (para saber mais, cabe pesquisa na internet e You Tube).

A mesma névoa típica do sul da China onde o WT nasceu, também torna sua história um tanto nebulosa. No mesmo período do provável surgimento do Wing Chun, temos também o surgimento de outros sistemas muito similares (que pelo menos tem as mesmas raízes históricas ou a mesma 'matriz'), onde suas próprias ‘estórias’, ‘lendas’ ou histórias de surgimento são similares (e até iguais), ou se misturam e se confundem (não seria a mesma história e portanto a mesma arte que apenas tomou direções diferentes?). Algumas ‘linhas’ defendem que estes sistemas seriam o mesmo, ou seja, um só, e apenas foram divididos por serem interpretados e ensinados de maneiras diferentes, o que não é nada difícil de acontecer. Artes 'irmãs' ou 'parentes' como o Weng Chun (Kuen) e o Wing Chun, que datam aproximadamente do mesmo período de surgimento e tem os mesmos princípios e heranças, e estão inseridos num mesmo contexto. 


Hipóteses históricas

No meio de todo este emaranhado de questões, duas ‘versões’ ou hipóteses históricas, no que se refere à criação do sistema Wing Chun estão mais à tona. A mais popular (ou popularizada) delas relaciona-se justamente como o mestre (ou linhagens que o seguem) mais conhecido do estilo: Ip Man, que conta a ‘estória’ ou lenda da monja Ng Mui e sua protegida Yim Wing Chun (para quem quiser saber dessa ‘estória’ – ou seria história? - cabe a pesquisa). A outra versão que, vendo como historiador, tem características de ser mais ‘histórica’ e menos ‘romanceada’ (ou lendária) que a primeira da monja e sua protegida, é a dos ‘rebeldes’ que no final do século XVII ou início do XVIII refugiaram-se no teatro de ópera chinesa dos juncos vermelhos para estudar/praticar (aprimorar ou desenvolver?) um novo sistema de Kung Fu, que depois ficou conhecido como Wing Chun e/ou Weng Chun, o que, segundo algumas informações diziam que era o nome da sala em que se estudava/praticava ou treinava clandestinamente o sistema dentro do teatro. Essa história (ou ‘estória’) funde-se como outra que diz que, dentro do Templo Siu Lam (Shaolin do Sul), havia um lugar chamado ‘Weng Chun Dim’ ou o ‘Grande-Salão da Perpétua ou Eterna Primavera’, o que nos dá outros elementos históricos para pensar sobre esta história cheia de informações e desinformações. Nesta hipótese do Templo Siu Lam, ‘Wing Chun’ ao invés de um nome pessoal (que seria o da protegida da monja Ng Mui, segundo a ‘versão’ mais popular) representaria o sistema avançado que foi desenvolvido dentro do Templo e passado em segredo durante algum tempo aos seus estudantes que formaram 'sociedades secretas' para o estudo, prática do sistema, como uma forma de resistência e auto-defesa às investidas dos manchus. O sistema Wing Chun permaneceria escondido até ser enfim levado a público durante a era do Juncos Vermelhos. Nesta hipótese, os membros do Teatro-ópera dos Junco Vermelhos não teriam criado o sistema. O Wing Chun teria sido criado no Templo Siu Lam pelos monges estudiosos das filosofias budista e taoista (aspectos confucionistas, de Sun Tzu, entre outros), e mestres em estilos de Kung Fu como Garça Branca, Emei Serpente, Chi Kung e outras 'artes internas', e posteriormente o WT tenha se infiltrado no Teatro-ópera do Juncos Vermelhos através das Sociedades Secretas, mais de um século depois de ter saído de Siu Lam. Porém, a existência ou não do Templo Siu Lam é outra dúvida. Mais uma provável 'lenda'. Segundo algumas pesquisas, este templo nunca existiu, e na verdade era uma (ou algumas) Sociedade Secreta, e não um templo. 

Dentro de toda esta complexidade de informações, fatos e/ou lendas, o que é importante saber é que estes ‘rebeldes’ estudantes/praticantes do novo sistema de Kung Fu se uniram para resistir e/ou combater a dinastia Qing dos Manchus, onde a simbologia ou significado de Wing Chun tem relação com isso, pois, um dos significados mais representativos é interpretado ou traduzido como: ‘Eterna Primavera’ ou ‘Canção da Eterna Primavera’, sendo que ela, a primavera, representa principalmente ‘renovação’.


Três Hipóteses referentes ao desenvolvimento do Wing Chun

Relacionado à história (ou ‘estória’) das sociedades secretas e seus rebeldes, podemos pensar em três hipóteses diferentes entre si no que concerne aos fundamentos do Wing Chun, pensado a partir de certa percepção de uma possível ‘lógica histórica’.

Primeira – os restauradores: Talvez, a mais popular ou reproduzida hipótese, diz que os ‘rebeldes’ queriam destronar o imperador manchu e retornar a dinastia anterior (Ming) do qual eram adeptos, o que caracterizaria a rebelião ou resistência como sendo um 'grupo político-restaurador' ligado à dinastia anterior;

Segunda – os revolucionários: os ‘rebeldes’ queriam destronar o imperador manchu para substituir o poder como lhes interessasse, junto a outros grupos rebeldes que se espalhavam pela China, o que caracterizaria a rebelião ou resistência como sendo um 'grupo político-revolucionário';

Terceira – os libertários: os ‘rebeldes’ estavam apenas se defendendo ou resistindo ao tratamento duro vindo da dinastia Qing, o que caracterizaria a rebelião ou resistência como sendo um grupo libertário, o que caracterizaria o WT como um sistema proativo (antecipatório) de defesa pessoal de um grupo que resistiu ao domínio violento da dinastia Qing. Ou seja, a ‘natural’ luta pela vida e liberdade de ser-estar, o que também fundamenta a ideia de que o sistema foi criado para pessoas ‘mais fracas’ (fisicamente falando) se defenderem de pessoas ‘mais fortes’. Isso caracterizaria um 'grupo político-libertário'. 

Devido ao fato de ser historiador, além de estudante e professor de WT, entre estas três hipóteses, como sendo a histórica, acredito na terceira, pois vejo nela mais sentido histórico, sendo que, os ‘rebeldes’, na sua maioria eram jovens e letrados (intelectualizados, ligados à filosofia e as artes, como música e teatro), seria a mais condizente com o contexto.

Por quê? Nas duas primeiras hipóteses, dentro de certa lógica contextual, a sociedade secreta em questão deveria ser formada por militares ou, agentes que, pelo menos tivessem sido educados ou treinados em regime militar e não por estudantes ou intelectuais das artes e filosofia, pois ambas as hipóteses trazem em si contextos ambiciosos de destronamento de um imperador de um grande e forte império, sendo uma de origem ‘restauradora’ e outra ‘revolucionária’, como citado acima. Em ambos os casos, isso só seria possível com forte disciplina e treinamento militar, além do uso de armas, estratégias e táticas militares, e isso só se daria com o estabelecimento de uma hierarquia militar e certo tempo de doutrinamento e treino duro, como é característico no militarismo. Sendo estas pessoas intelectualizadas, portanto, inteligentes e sensíveis (ao modo artístico de sê-lo), dentro de certa ‘lógica’, penso que não teriam esta ambição desmedida, tamanha dificuldade em combater um grande e forte império como o dos manchus. Outro fator que me leva crer na terceira hipótese é o de que não faria muito sentido os ‘restauradores’ quererem lutar por uma dinastia também opressora como foi a Ming (característica dos impérios chineses). Por isso opto por crer na terceira hipótese, a mais simplória e condizente com o contexto, e que tem mais a ver com os fundamentos de ‘prática proativa’ e ‘não militar’ do WT. Mas como eu já deixei claro antes, isso não é uma ‘verdade’ ou um fato, apenas uma entre tantas hipóteses.


Modos de se interpretar e conceber o sistema WT

Algumas linhas de se pensar, estudar e praticar WT defendem a ideia de que ele não é um sistema ‘simples’ como comumente se propagandeia por aí, mas foi ‘simplificado’. No caso, o WT foi simplificado a modo de facilitar sua prática, num período urgente de resistência em que não havia tempo suficiente para estudá-lo profundamente. Eis então que ele sofre uma adaptação, adequação, uma alteração, mais ou menos por volta de 1850 em diante, junto ou depois da 'rebelião Taiping'. Foi aí então que, supostamente ele possa ter sofrido influência militar. Nisso, o WT ‘endureceu’. Ou seja, tornou-se mais mecânico, corporalmente falando, onde seu 'fator interno' diminuiu muito. Mas, o WT no seu modo ‘relaxado’ (e também ‘interno’) de ser concebido, resistiu, onde o trabalho meditativo e técnico de captura, concentração e fluxo de energia (‘chi’), presente em outros estilos ou sistemas de Kung Fu, se manteve, só que com menos visibilidade. É fato que alguns (ou muitos) professores, mestres e/ou praticantes não acreditam nisso, talvez por desconhecerem esta questão e seu fundamento, ou mesmo por aprenderem diferente, segundo suas ‘linhas’ ou o ensinamento das ‘linhagens’ de que fazem parte, outros ainda, por um fator político-ideológico. 

Outra leitura de contexto diz que Ip Man também fez uma adequação do WT neste sentido, ao ir para Hong Kong, um grande centro urbano, onde adquiriu muitos alunos, e pelo falto então, de ter que ensinar dentro de um grande coletivo, sendo que o tempo não era suficiente para tal e, como um professor sozinho (quem trabalha em sala de aula sabe bem disso), para dar conta do recado, teve que 'simplificar' o sistema à um modo mais ‘mecânico’ ou 'formal'. Mas, dizem que, para os seus alunos ‘escolhidos’ (que se destacavam), ensinava de uma forma mais flexível. Este ‘endurecimento’ ou ‘mecanização-militarizada’ também aconteceu com outras artes ditas ‘marciais’, como o Caratê por exemplo. Nisso, também entra o contexto ‘esportivo’ dito de ‘rendimento’, e o ‘espetáculo’ cotidiano e midiático (muito comum hoje em dia) ligado à questão estética (físico-muscular), o que também muda o modo de se ‘incorporar’, estudar/praticar e conceber a ‘arte marcial’, assim como resulta também, na mudança da sua finalidade, onde que, muitas vezes, infelizmente, acaba diluindo ou morrendo sua essência.  


Considerações finais

Dentro de todo este panorama (que é parcial, mas não segmentário, idealista ou ideológico), com um intuito e uma visão universais (em aberto e sem determinismos ou reducionismos históricos), em linhas gerais penso que, por ser uma arte sofisticada de auto grau técnico e de concentração, e pelo contexto histórico do período, o mais condizente com os fatos, se partirmos de certa lógica histórica, é que o sistema Wing Chun e/ou Weng Chun tenha sido desenvolvido no sul da China, inicialmente por mestres estudiosos de algumas áreas do conhecimento, entre elas filosofia, física, meditação, técnicas de respiração e corporais (Chi Kung, Tai Chi), assim como de alguns estilos mais antigos de Kung Fu como a Garça Branca e a Serpente, por exemplo (justamente os que viriam ser os dois animais-símbolo do WT. Depois o WT adquiriria seu nome, a partir do espaço de estudo e prática da então nova arte e da simbologia que o nome carrega, e enfim seria amplificado para além das Sociedades Secretas, no Teatro-Ópera dos Juncos Vermelhos, onde possivelmente, tenha tido outros desenvolvimentos e agregados novos instrumentos e conhecimentos, até chegar ao Wing/Weng Chun das famílias, linhagens, escolas e por fim ao grande público.

Enquanto experiência pessoal, junto ao meu grupo ou associação, buscamos estudar/praticar WT a partir de seus aspectos filosóficos e históricos, além de técnicos e físicos, priorizando a dinâmica que o sistema oferece e sua fluidez (o que inspirou o nome da nossa associação), relacionando-o a outros conhecimentos e ‘estilos’ ou sistemas 'irmãos', 'parentes' e afins, que venham a integrar ou interagir naquilo que nos propomos enquanto estudantes/praticantes dentro de um coletivo. Nisso, o equilíbrio entre os polos de energia (Ying-Yang), as partes ‘interna’ e ‘externa’ da arte, assim como os conhecimentos de vida de cada estudante, são elementos indispensáveis nos nossos estudos, pois, é alinhando ‘Mente, corpo e energia’ (ver conceito no taoismo) que trabalhamos a ‘incorporação’ do Kung Fu em cada um, a partir do seu ‘espírito’ (enquanto energia dentro do meio), em busca do ‘equilíbrio’ fundamental para ser-estar, o que considera sempre o entorno e o porvir. Eis, em suma, a concepção e prática de Wing/Weng Tjun da AFWK.


(Herman Silvani - historiador, professor de filosofia, sociologia, linguagens, Chi Kung e Wing Tjun)





sábado, 19 de dezembro de 2015

As artes marciais e o conservadorismo


  • Porque muitos entusiastas, estudantes/praticantes, instrutores, professores e até ‘mestres’ de artes marciais no Brasil reproduzem concepções conservadoras?
Começamos com a  questão: O que é o ‘conservadorismo’?

Termo usado para descrever posições político-filosóficas alinhadas com certas tradições ou crenças que em geral se contrapõem a mudanças ou avanços. Característica do que é conservador, avesso a mudanças. Em termos históricos o conservadorismo é uma doutrina associada à direita política que costuma defender determinadas tradições, valores religiosos e nacionalismo, como forma de manter certo padrão de pensamento e ações, geralmente formais e presos dentro de certas normas, hábitos, crenças, ideologias ou valores imutáveis de autoridade. 

A partir de leituras, alguns diálogos ou debates com praticantes, professores e mestres, e de refletir em torno de algumas publicações no mundo virtual (sob tudo na rede social), é que cheguei à questão.

Um dos grandes sentidos históricos e filosóficos do Kung Fu, assim como um dos seus maiores motivos de ser, é “parar com a guerra”. Sentido este simbolizado por uma saudação tradicional chinesa. E isso é (ou deveria ser) básico no ‘modo de vida’ que também é o Kung Fu. Porém, muito se vê ‘artistas marciais’ por aí fazendo o contrário, ou seja, promovendo ou alimentando ‘guerras’ (externas e internas) nas suas manifestações públicas (leia-se ‘guerras’ aqui, como ‘conflitos’ carregados de ‘violência simbólica’, neste caso em específico). Atitudes e posturas que amesquinham a riqueza cultural, histórica, filosófica e conceitual que é o Kung Fu em sua essência, para além de sua aparência. Seguindo certo fundamento do Kung Fu, nós, estudantes, praticantes ou professores de Kung Fu ou outras artes marciais afins, deveríamos proceder no sentido de “parar com a guerra” e não “promover a guerra”. Sobre isso, já nas escritas antigas de antigos pensadores ou sábios chineses, se propunha um equilíbrio no mundo manifestado, interna e externamente (leia-se Lao Tse, Chuang Tzu, entre outros). Isso também transparece em uma das obras mais significativas em se tratando de ‘arte marcial’, falo do livro a “Arte da Guerra” de Sun Tzu, onde ele destaca: “A primeira batalha que devemos travar é contra nós mesmos”.

Geralmente esta característica ‘conservadora’, determinista e reducionista, de se promover guerra em nome de uma suposta ‘verdade’, está ligada as posturas ‘duras’ ou ‘rígidas’ do homem ‘militarizado’ (leia-se o termo aqui enquanto forma cultural de ser/estar), onde no ocidente, geralmente, acontece pelos ‘tecnicistas’ do Kung Fu, ou seja, àqueles que estudam somente o sentido técnico da arte, onde que, assim, vivem afastados da essência do Kung Fu, sendo que, ‘técnica não é essência, é instrumento’. Nisso, há uma diferença considerável entre técnica e sensibilidade, sendo que ambas fazem parte e constituem o Kung Fu, para além de sua popularidade espetaculosa ou caricata, ou seja, de seu estereotipo ou clichê. Mas, no Brasil (e certamente, em outras partes do mundo), muito do Kung Fu que se promove por aí é feito estereótipo ou clichê. Acontece muito com entusiastas das artes marciais se transformarem em estereótipos ou caricaturas ambulantes, sendo que, frequentadores de academias esportivas e/ou comerciais, prezam mais pelo corpo malhado, seguindo um discurso de saúde a partir da aparência e não do interior, onde se valoriza mais a estética ou somente a técnica do que a filosofia que permeia toda a prática do Kung Fu. É muito comum hoje vermos o estereotipo do corpo bem trabalhado e tatuado, além da força física aparente e por assim ser, postura impositiva, somado isso ao ego elevado, inimigo número um do Kung Fu.

Os valores intrínsecos do Kung Fu são de alto nível humano, onde o respeito, a hombridade, a serenidade, a simplicidade e a tolerância (entre outros), são questões primordiais no seu fundamento, bem diferente do que se vê muito por aí, aquele sujeito ‘machão’, durão, todo forte e com a palavra impositiva dita na vertical, algo bem comum neste mundo virtual contemporâneo onde muitos posam de sociólogos, filósofos e psicólogos, sendo que, geralmente não passam de moralistas conservadores.

Entusiastas e estudantes defendendo ‘causas’ mesquinhas ou medíocres, até se compreende, já que estão ‘estudando’ (mas não necessariamente aprendendo), mas, instrutores, professores e/ou mestres reproduzirem estas atitudes, aí já temos um problema.

No período das dinastias autoritárias e repressoras da população mais vulnerável da China antiga, monges budistas praticantes do Kung Fu do famoso templo Shaolin raramente saíam de seu habitat. Uns dos motivos destas saídas eram, em tempos de crise, fome e guerras, ajudar os mais necessitados que sofriam pelas ruas. No belíssimo filme ‘Shaolin’ de 2011, dirigido por Benny Chan, em dado momento, é narrado este fato. A própria história do Wing Chun, por exemplo, segundo alguns estudiosos, tem íntima relação com a arte, com o feminino (sensibilidade) e a ajuda aos mais vulneráveis, a partir de grupos rebeldes ou revolucionários que resistiam ao regime autoritário imperial dos manchus se sua dinastia (Qing, 1644 - 1912). Ou seja, segundo alguns estudos, tecnicamente falando, o Wing Chun foi desenvolvido para que pessoas ‘mais fracas’ pudessem se defender de pessoas ‘mais fortes’, e historicamente, como uma ‘arte de resistência’ a opressão das investidas violentas do império (leia-se que isso não tem nenhuma relação direta com a teoria marxista, foi muito antes de ela existir).

A dureza ou a rigidez de movimentos e o condicionamento físico supervalorizado, mas principalmente, a dureza ou rigidez nas concepções e certas formas de agir, são heranças militares nas artes ditas ‘marciais’ (conste que o termo ‘marcial’ é ocidental, remetendo-se a Marte, deus romano da guerra), o que difere da concepção flexível e tolerante de viver a vida, típicos do Kung Fu, concepção esta herdada das fontes filosóficas orientais, onde o taoismo e o budismo (enquanto filosofias e não religiões), por exemplo, tem fundamental papel nesta cultura (China e Kung Fu).

Pregar ou reproduzir a cultura da violência, da punição e/ou da morte não é postura de um praticante de Kung Fu que dignifica sua arte, assim como a repressão de um ditador ou o prevalecimento de um poder sobre uma carência (mais fortes sobre os mais fracos) vai totalmente ao oposto do que é o Kung Fu, no mais amplo sentido de seu termo e significação.

“Parar com a guerra” então, não é reproduzir ou posicionar-se ao lado de entidades e/ou pessoas que promovem, em ações, campanhas ou discursos, a violência, a ‘guerra’ (seja ela física, religiosa, de gênero ou ideológica). Eis que, um praticante, professor ou mestre de Kung Fu, digno de sê-lo, deve ter este discernimento, tendo uma postura serena, pacífica, humanizada, tolerante, respeitosa e inteligente frente a certas realidades e políticas estabelecidas. A crítica ou a posição podem existir, mas não devem ser odiosas, maléficas, mesquinhas, medíocres, deterministas, reducionistas. Elas devem ser profundas e equilibradas, assim como deve ser a prática de vida de quem vive o Kung Fu e não apenas o treina externamente/fisicamente. Eis a diferença de uma coisa de outra. Eis o que muitos não conseguem compreender, viciados que são em suas conveniências e egos.

"Céu e terra não tem atributos e não estabelece diferenças: tratam miríades de criaturas como cachorros de palha". (Lao Tse)

Viver o Kung Fu não é exibição nem discurso de superioridade ou ódio. Viver o Kung Fu é caminhar na vida buscando equilíbrio e participando do mundo com ‘sensibilidade’, considerando o entorno e o outro, tendo consciência que o ser humano não é superior à natureza, mas faz parte dela e, sendo assim, deve respeitá-la como tal. Em suma, somos seres da natureza, onde o Kung Fu é um ‘caminho de vida’.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Kung Fu, entre o dinamismo e o tecnicismo

Existem pelo mundo uma infinidade de ‘estilos’ de Kung Fu, assim como, uma infinidade de escolas, associações e linhagens desta nobre, antiga e sofisticada arte. Cada qual com suas tradições, peculiaridades e aspectos. Algumas mais ‘modernas’ outras mais ‘tradicionais’, digamos, no que concerne seguir certos padrões ou normas vindas do ‘estilo’ ou ‘modo’ familiar de se fazer (conceber, estudar e praticar). Além da ‘tradição’ das ‘linhagens’, existem aquelas que não seguem uma linhagem em específico ou exclusivamente, optando (ou por uma necessidade) por não seguirem uma única orientação (‘modo familiar’ ou ‘linhagem’). Ambos os casos podem ser interessantes e profundos – ou não. Vai depender da sinceridade para com os estudos e a arte, além do acesso e boa orientação. Ou seja, a questão é complexa e requer de cautela quando for tratada, pois, julgamentos externos não são suficientes para compreender ou caracterizar uma ou outra prática, associação ou escola.

Dito isso, vou me conter aqui em falar de uma questão que muito aflige praticantes/estudantes e entusiastas do Kung Fu. Ou seja, duas vertentes bem comuns que ora se separam, ora se fundem, em ‘linhas’ ou ‘modos’ de se conceber, estudar ou praticar Kung Fu. Uma delas, vamos chamar de ‘vertente dinâmica’, outra de ‘vertente tecnicista’ (sendo que, ‘técnica’, ambas as vertentes possuem, como algo indissociável da prática).

Vertente Dinâmica

A ‘vertente dinâmica’ é aquela que, além da técnica, preza pelo estudo filosófico/conceitual do ‘estilo’ ou ‘sistema’, onde geralmente se estuda, respeita e incorpora certa ‘espiritualidade’ (não no sentido religioso da palavra, mas de ‘estado’ existencial interno e externo – leia-se taoismo), numa prática que funde ‘mente, corpo e equilíbrio’. Nisso, o Kung Fu passa a ser algo ‘espirituoso’, além de técnico e físico-externo, onde as chamadas ‘artes internas’ tem um papel fundamental, a partir da concepção, estudo ou prática. Ou seja, do uso da chamada ‘energia Chi’ (também chamada de ‘sopro vital’ na cultura chinesa). Quando falamos em Kung Fu, falamos na China, na sua história, seus conceitos e concepções de vida, ou seja, na sua CULTURA. Nesta vertente, pensar e praticar o Kung Fu torna-se algo ‘naturalizado’ (ver conceito no taoismo - enquanto filosofia), o que passa a ser parte da vida do estudante/praticante, e não apenas uma ‘arte marcial’ como é comumente dito ou propagandeado por aí. Em síntese, o praticante de Kung Fu nesta vertente passa a ‘incorporar’ esta arte como, pelo menos, parte do seu modo de vida, de estar, pensar e viver o mundo, em relação às coisas e aos outros. Nisso, Kung Fu passa a ser algo que vai muito além da técnica e da luta ou das apresentações esportivo-artísticas. Como uma habilidade humana, o Kung Fu se estende para outras várias áreas de atuação, inclusive, como um modo de pensar e agir no mundo. Nisso, uma das distinções que caracterizam esta vertente, se dá pelo estudo e uso conceitual de alguns aspectos da filosofia oriental que constitui parte importante (ou fundamental) do Kung Fu (quando concebido, pensado e aplicando nesta vertente, é claro). Ou seja, uma ‘orientação’ existencial, mental (espiritual) e também prática (inclusive técnica, a partir de alguns conceitos traduzidos na prática efetiva do Kung Fu, conceitos estes provindos do taoismo e do budismo, enquanto filosofias e não religiões, assim como, alguns de Kung Fu-Tzu ou Confúcio, e Sun Tzu e seu ‘Arte da Guerra’). Estas ‘filosofias’ contribuem muito para uma concepção mais abrangente e, justamente, dinâmica de Kung Fu.

Vertente Tecnicista

A ‘vertente tecnicista’ é praticamente o oposto da ‘dinâmica’, sendo que, não traz em si o caráter filosófico/conceitual da primeira (ou pelo menos, quase nada dele – se pensarmos na impossibilidade do Kung Fu estar distante ou independente dos preceitos filosóficos citados acima, no caso da vertente dinâmica). Ou seja, de um modo geral, não tem o mesmo ‘espírito’ nem o dinamismo ou o aprofundamento sociocultural da primeira. Aí temos um Kung Fu geralmente mais ‘ocidentalizado’ que, em muitos casos, se assemelha a outras artes marciais onde a ‘luta’ ou as ‘competições’ esportivas são o principal objetivo (além do discurso de ‘defesa pessoal’), independente daquele velho discurso que também é um clichê, exposto em muitas academias mundo afora, de: ‘Respeito, humildade e disciplina’. Não que não exista, mas, não é bem assim ou deste jeito, pelo menos, não em todos os casos. Na vertente tecnicista se enfatiza justamente a técnica, onde ‘mente, corpo e equilíbrio’ não necessariamente são práticas fundamentais. Eu diria que, nesta vertente, em muitos casos (pois não dá para generalizar), a sensibilidade perde espaço para a dureza das relações, tanto físicas quando mentais, e o Kung Fu é visto pelo modo como é praticado, nos movimentos corporais e expressões físicas. O relaxamento e a flexibilidade (no sentido de ‘leveza’) da vertente dinâmica são feitos rigidez e determinismo na vertente tecnicista. Se compararmos com a poesia, por exemplo, a primeira (dinâmica) seria o estilo ‘verso livre’ de se escrever, onde a prioridade é o conteúdo, a profundidade e sensibilidade das imagens (corpo e movimento) e do que está sendo dito (conteúdo), e a segunda (tecnicista) seria o ‘parnasianismo’, estilo literário-poético onde se prioriza a ‘descrição’ geralmente fria de uma situação e a ‘métrica’ (técnica) na sua feitura.

Tempos atrás tive alguns diálogos ou discussões com praticantes, entusiastas e ‘mestres’ brasileiros de Kung Fu, relacionados a este tema que estou abordando agora – só que de forma bem menos profunda. Alguns deles, direta ou indiretamente, conscientemente ou não, defenderam a ‘não relação do Kung Fu com a filosofia chinesa ou oriental’ (sob tudo o budismo e taoismo), reduzindo estes ‘complexos culturais’ em religiões (a modo ocidental de pensá-las, sendo que, a questão que se põe é: ‘são essencialmente religiões ou foram tornadas religiões?’). Conste que, um destes ‘mestres’ que me disse, secamente, que ‘o taoismo não tem relação com o Kung Fu’, tem na logo marca de sua escola (e/ou empresa) o símbolo do Ying-Yang. E a coerência? Por isso e por outras, dá para se dizer que em alguns casos, como neste em específico, símbolos importantes que carregam em si significados fundamentais, muitas vezes são só adereços na ornamentação de estereótipos. Em outro caso, outro ‘mestre’, com certa arrogância se colocava na discussão defendendo a ‘pena de morte’ – detalhe: se declarava ser budista. Mais um exemplo da incoerência que existe em boa parte dos ‘artistas marciais’ brasileiros. Sua arrogância e ego inflamado superaram de longe seus argumentos (por tentar impor sua condição de ‘mestre’, por mais superficial que possa ter sido sua postura – existe aí um ‘autoconvencimento’ ou ‘orgulho vaidoso’ dado pela titulação) deu indícios claros da sua vertente. 

Em suma, penso que, infelizmente, no Brasil, parte significativa das escolas de Kung Fu que se promovem por aí, pouco ou nada diferem de algumas ‘artes marciais’ feitas meros negócios que brotam e lotam academias Brasil adentro e mundo a fora, onde o tecnicismo sobrepõe ou submete a própria profundidade e dinamismo da ‘arte marcial’, enquanto um complexo de valores e práticas, reduzindo-a a uma mera caricatura daquilo que ela deveria ou poderia ser em sua amplitude e história. Para alguns, um desrespeito cultural e histórico, ou no mínimo, uma tremenda incoerência entre discurso e prática, algo comum, muito comum, nesta realidade das aparências e autoafirmações.



"A essência da técnica não é a técnica. Técnica é instrumento". (a partir de Heidegger)



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Energia interna (a partir do fluxo de ‘Chi’) e Força física material (muscular corporal): diferença na realidade prática

Basicamente existem duas formas de se utilizar o corpo em uma ação física, dentro do tempo e espaço. Uma delas é o uso da força física material, dado pela ação do corpo a partir de sua força e resistência muscular e mecânica, outra é o uso da ‘energia interna’ (da natureza – lembrando que somos parte dela) que passa pelo corpo, a partir da concentração e fluxo do que na China é chamado de energia ‘Chi’, o ‘sopro vital’ (energia cósmica vital) no organismo, energia esta que mantém animados os corpos, fornecendo vitalidade ou energia ao que é vivo. O uso da força física geralmente é bem mais comum, pelo menos na maioria dos casos (leia-se trabalho, esportes e mesmo nos afazeres domésticos). É a força motora/muscular usada em lutas, brigas ou atos de violência física, assim como em ações ou trabalhos que exijam esforço físico. Já o uso da chamada energia interna, gerada pelo fluxo de ‘Chi’ (que também significa ‘ar’: note-se que o ar é elemento essencial da vida), na maioria das vezes é pouco notado, concebido ou assimilado, e portanto, não usado (pelo menos como poderia ser). Ou seja, a energia interna é mantenedora e potencializadora de vida, portanto, também de movimentos e suas forças, porém, pouco ou nada percebida, desenvolvida e portanto, utilizada por aqueles que precisam usar o corpo como um instrumento de defesa da vida ou dos órgãos internos. Um exemplo disso são as lutas ou esportes onde o corpo é usado ‘brutalmente’ pelo condicionamento físico, em que a força muscular e motora atua, em grande parte dos casos, decisivamente.

A partir desta breve discussão introdutória e desta ‘diferença’ entre ‘forças’ e seus usos (pois ‘energia’ neste caso, também é um tipo de ‘força’), convido a pensarmos, num primeiro momento, mais ‘matematicamente’ ou formalmente sobre estas duas formas ou modos de uso do corpo e suas ‘forças’. Pensemos então numa situação onde, de um lado, está um corpo que pesa 130 Kg (entre massa corporal e ossos), sendo parte desta massa dada pelo desenvolvimento muscular (além da estrutura física, ossos e gordura). Este corpo desfere um golpe, um soco que vem com muita força, dada pela soma entre peso, velocidade e massa (volume). Certamente dentro de dada técnica que permita um bom golpe, este será muito contundente e forte, dado a soma dos elementos que compõem o atrito ou a força frente ao alvo (ou seja, o outro corpo). De uma forma geral, é assim que a força física atua, neste sentido. Do outro lado temos um corpo menor, que pesa em torno de 65 Kg, com os mesmos elementos físicos do primeiro corpo citado, só que, com uma massa corporal bem menor. Certamente, se o golpe bem desferido do primeiro corpo atingir o segundo, este não terá chance alguma de resistir, pois, fisicamente e materialmente estes corpos são incompatíveis, dada a grande diferença entre suas estruturas. No caso, não há como o corpo menor não ser abalado pela força externa do maior. E é aí que entra o trabalho e bom uso da chamada ‘energia interna’. Se o primeiro corpo é muito mais forte e foi eficiente na sua investida, o segundo corpo sofreu o impacto e foi desmoronado pelo primeiro pois, só contava, neste caso, com sua própria estrutura física e/ou material. Muito mais leve e ‘fraco’ estruturalmente falando, não teve chances de resistir. Mesmo usando certa técnica de defesa pessoal, como um bloqueio com algum membro, este membro foi arrastado com o forte impacto, chegando até o corpo, com menos impacto é claro, mas não o evitando, e não evitando também sua derrocada. Dois corpos fortes, sadios, bem estruturados, feitos da mesma matéria, porém com pesos muito diferentes, num atrito direto, vence o maior ou mais pesado, devido a certa lei da física que trabalha com a soma dos elementos na ação. Então, a forma ‘lógica’ do menor e portanto mais frágil corpo não sofrer sua destruição é também não atuar em pé de igualdade com o corpo maior, pois, de fato, não existe, neste caso, esta igualdade físico-estrutural. Sendo assim, o corpo menor não pode resistir com as mesmas condições (pois nem as possui) do corpo maior.  Portanto, deve ele, utilizar-se de outro fator que defenda sua integridade. E este fator não é simplesmente a força física-muscular, mas sim, sua habilidade, no que diz respeito a flexibilidade do corpo. Flexibilidade esta dada pelo relaxamento físico, tanto externo quanto interno. E esta habilidade de ‘relaxamento’ e ‘flexibilidade’ (no caso, o bom uso do corpo, com consciência dele próprio e do lugar que ele ocupa no espaço), é adquirida através de técnicas, estudos ou práticas que ‘incorporam’ o uso da energia interna (‘Chi’). Eis que assim o corpo menor tem uma ‘arma’ que pode assegurá-lo de não sofrer tal investida do corpo maior. Ou seja, o revide não se dá por um simples ‘bloqueio’ dito defensivo, mas sim por um ‘desvio’ do golpe e da força vinda do corpo maior. Em nosso ‘sistema’ de W.T. chamamos este ‘desvio’ de ‘deixar passar’ ou ‘deixar ir’, a partir da habilidade adquirida pelo treino ou estudo técnico junto ao uso da energia ‘chi’ (relaxamento ou derretimento interno e externo) já citada anteriormente. Sendo esta a forma de lidar ou defender-se desta situação pensada por nós para perceber a diferença entre uma coisa e outra, sendo que, não é o ‘condicionamento físico muscular’ do corpo menor que, neste caso, vai fazer a diferença.

E sendo assim, vos falo não só a partir de estudos teóricos ou uma crença, mas também pela experiência própria (sendo que, além de praticarmos nossas técnicas a partir de situações como estas, já tive a experiência onde a defesa do meu corpo - terreno ou território - se deu justamente por certa habilidade ou conhecimento de usar a ‘energia interna’). Por isso enfatizo, estudo e trabalho com meus irmãos e/ou alunos, a busca, concentração e uso desta energia que passa por todos os corpos vivos, porém, em que nem todos os ‘corpos inteligentes’, usam. Muitos deles, nem sequer acreditam que esta energia exista, onde resumem tudo e apostam todas as suas fichas na força físico-muscular e seu condicionamento, ficando assim reféns de um limite que a própria condição físico-existencial lhes impõem, ou de uma sorte quem nem sempre os acompanha. Porém e contudo, o bom uso desta ‘energia interna’ também vai depender da prática e/ou estudo técnico ligados ao cultivo desta sabedoria, com suas estratégias, conhecimentos e habilidades, pois não falamos aqui em magia, crença ou mito, mas numa realidade nem sempre aprendida, percebida, concebida ou posta em prática. Mais que crer ou não, é preciso adquirir, incorporar ou saber. Assim o ‘sentido’ deste conhecimento passa a existir na prática cotidiana e pelo corpo, independente da sua racionalização ou crença, pois, vai muito além disso.




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Eterna Primavera - significado(s) de Wing Tjun...

"Eterna Primavera", "Eterna Canção da Primavera", "Canção da Eterna Primavera", "Cantar à Primavera" e/ou "Linda Canção da Primavera", são alguns significados tradutórios de Wing e/ou Weng Chun (significado que também se remete às sociedades secretas, famílias e ao teatro-ópera chinês dos juncos vermelhos onde o sistema Wing Chun foi clandestinamente desenvolvido e estudado). No entanto, etimologicamente, o significado de 'Wing ou Weng' pode ser expresso por “anúncio do eterno, infinito ou perpétuo”, enquanto 'Chun'  pode representar “a superação das dificuldades iniciais para alcançar a maestria ou excelência, sob o efeito da luz”, o que é representado, no caso, pela 'primavera', enquanto anunciação do novo ou regenerado. Desta maneira, por extensão de sentido, o nome Wing Tjun conduz ao conceito de “Aprendizagem ou Arte Proativa”. 

Primavera 

Estação do ano que representa um período de 'fluência' ou 'fluxo', 'renovação' e/ou 'transformação' climática rejuvenescedora, onde a vida ou a natureza atingem novamente suas energias de criação ou restauração e continuidade. Por isso o termo "Eterna Primavera" foi utilizado pelos revolucionários chineses (etnia han) anti-Qing, que procuraram resistir aos abusos desta dinastia ou restabelecer o território chinês para si. Eis o contexto histórico do surgimento do Wing Tjun, que data do século XVII, como uma arte de resistência ao império Qing dos manchus.

A dinastia Qing (governo dos manchus), teve início quando os manchus invadiram o norte da China em 1644 e derrotaram a dinastia Ming. Qing foi a última dinastia imperial da China, precedida pela dinastia Ming e sucedida pela República da China só em 1912.

* Flor de ameixeira (chinesa): símbolo da Primavera e um dos símbolos do Wing Tjun 

A flor de ameixeira é um dos símbolos do sistema Wing Tjun de Kung Fu.  A flor de ameixeira desabrocha no rigor do inverno chinês (diga-se de passagem, onde se faz um frio extenuante e neva em demasia), agindo como um aviso de que a primavera está chegando, e com ela a renovação... 

Sejamos todos/as bem vindos para a Eterna Primavera!



domingo, 6 de setembro de 2015

'Chi', o sopro vital - energia pelos corpos e no Kung Fu

Também chamado de 'energia cósmica' e 'energia vital', no ocidente o 'chi' não tem uma 'explicação formalizada' (e muitos poucos estudos). Seu conceito transcende o racionalismo e o ceticismo materialista ocidental. Muitos acreditam que esta 'energia' ou 'força' seja apenas uma crença antiga oriental, ou um mito (sendo que mito não é uma 'mentira', mas uma 'narrativa', uma forma figurativa e/ou simbólica de expressar e/ou tentar explicar ou contar alguma coisa ou história), por não compreenderem que, nem tudo no mundo das coisas e ideias tem uma 'explicação matemática', formal, 'cientificista' ou 'racionalista'. Portanto, Chi não é mito, muito menos uma mera crença. Conceitos e formulações científico-ocidentais, como o ATP (trifosfato de adenosina) por exemplo, não são a mesma coisa que o Chi, também não desvendam ou explicam esta energia que é vítima de muitos equívocos, incompreensões ou distorções. Ou seja, pensar o Chi vai muito além do cientificismo racionalista de cunho cartesiano. * Não é porque não se possa explicar o Chi que ele não exista ou aconteça.
Dito isso, temos, por exemplo, na China, um dos menores (senão o menor) índice de doenças ou degenerações relacionadas as 'energias físicas-corporais' e de órgãos, assim como, doenças como a depressão e o câncer, por exemplo, tem índices bem menores do que no ocidente. O tempo de vida 'saudável' por lá também é maior do que aqui no ocidente. É comum vermos idosos praticando artes 'internas' e 'externas' (que são, de certo modo, indissociáveis) comoTaiji (ou Tai Chi Chuan), Chi Kung (ou Qi Gong), Kung Fu, e meditação, em meio a natureza, em suas casas, praças, crianças e jovens em escolas, etc. A questão cultural compõe o meio, onde a 'energia cósmica' do 'chi' tem relevante presença na ambientação dos lugares e espaços. Isso, interfere diretamente na qualidade de vida dos seus habitantes, somado o exterior ao interior do ser na busca do 'equilíbrio' para uma vida mais serena e energeticamente positiva. Esta 'energia' gera também 'força física', mas não uma força condicionada, refém da musculatura e da mecânica físico-corporal, mas uma força que emerge do interior para o exterior, como o exemplo que veremos em um dos vídeos dos links abaixo.
Por fim, a confusão, as controvérsias e os equívocos sobre esta 'energia', dependem muito da crença e dos valores 'pessoais' e 'culturais' de cada um, pois, de fato, o primeiro passo para que qualquer coisa funcione é depositar 'fé' nela, ou seja, 'acreditar', mas apenas isso não basta, é necessário também perceber, buscar e 'praticar', ou seja, buscar este 'caminho', que não é um fim, mas um 'caminho' (leia-se conceito taoista), e para isso, basicamente é preciso disposição para tal e perseverança, permitindo-se a experimentar, liberando as 'durezas' e 'condicionamentos' do corpo oprimido por certa tradição de cunho 'judaico-cristã' (onde o corpo é parte de um 'pecado' e de uma padronização físico-espacial - leia-se Foucault). Ou seja, a questão é complexa, porém, diferente do que muitos pensam ou falam. Não há mito nem magia nisso, apenas busca, prática, estudos e técnicas, onde 'mente, corpo e energia' possam estar equilibrados entre si, gerando algo que foge de uma explicação reducionista da natureza e sua força cósmica, onde nós, humanos, estamos inseridos, para além das aparências estético-físicas e materiais. Enfim, muito mais do que apenas 'achar' e acreditar ou desacreditar, é preciso buscar, estudar, compreender, experimentar, praticar e 'incorporar' para adquirir, tanto a fluência desta energia quanto sua percepção e controle, descobrindo onde ela atua e as mudanças que traz para a vida.
(Herman G. Silvani, estudante/pesquisador e instrutor de Wing Tjun Kung Fu - elementos internos e externos)

Nisso, os links abaixo trazem um pouco deste 'conteúdo'. Boas leituras, impressões e reflexões!


* O Chi a partir da ciência quântica: https://www.youtube.com/watch?v=lvFJPQ5v27Q

* Chi Kung - a natureza que nos circunda e sua energia, a partir de técnicas: https://www.youtube.com/watch?v=6I0rQuoBT8I

* Qi Gong e os meridianos: https://www.youtube.com/watch?v=O9OCvBu35O8

* Experiência entre 'forças': física muscular e física interna (Chi):https://www.youtube.com/watch?v=nAIDi5Nip64

* Aplicação da energia interna no Kung Fu (demonstração do mestre):https://www.youtube.com/watch?v=l7wDsaMsypk